O silêncio que grita: quando a falta de diálogo adoece o amor

Publicado por: Feed News
21/02/2026 21:54:35
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O silêncio que pesa: quando o amor e o ódio dividem o mesmo espaço
O silêncio que pesa: quando o amor e o ódio dividem o mesmo espaço

Especialistas alertam: casais que não conversam desenvolvem mais problemas de saúde física e mental

 

A linha invisível entre o amor e o ódio: o que a psicologia revela sobre sentimentos que se misturam
Você já olhou para alguém que ama e sentiu, ao mesmo tempo, uma vontade irracional de se afastar? Já experimentou aquela mistura confusa de carinho e irritação, de saudade e alívio quando a pessoa vai embora? Se sim, saiba que você não está sozinho — e mais importante: isso não significa que seu relacionamento fracassou.

 

Amor e ódio são frequentemente retratados como polos opostos, como água e fogo. Mas a psicologia contemporânea revela uma verdade surpreendente: esses dois sentimentos não apenas coexistem como também se alimentam mutuamente. Eles são, na verdade, faces da mesma moeda — a moeda do envolvimento emocional profundo.

 

Quando o coração vira campo de batalha
A neurociência já demonstrou que amar e odiar ativam regiões muito semelhantes no cérebro. O córtex insular, área responsável pela intensidade das emoções, não distingue se o sentimento é positivo ou negativo — ele apenas registra a força da experiência. Isso explica por que uma discussão acalorada com alguém que amamos pode nos fazer sentir, por alguns instantes, que o odiamos.

Em relacionamentos amorosos, essa ambivalência é mais comum do que se imagina. Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology revelou que casais que relatam momentos intensos de raiva também são os que descrevem os momentos mais apaixonados. A chave não está na ausência de conflitos, mas na capacidade de atravessá-los sem destruir a relação.

 

O preço invisível da intimidade
A psicanalista brasileira Maria Homem, especialista em laços afetivos, explica que todo relacionamento profundo exige uma espécie de "cessão de território". "Quando você se envolve verdadeiramente com alguém, abre mão de uma parcela da sua liberdade. Isso é inevitável. O problema é que, em uma cultura que hipervaloriza a autonomia individual, essa entrega pode ser vivida como perda, como aprisionamento", analisa.

E é justamente aí que o ódio encontra brecha para aparecer. A pessoa amada, que antes era fonte de prazer e acolhimento, passa a ser vista — ainda que inconscientemente — como aquela que limita, que exige, que ocupa espaço demais. Não é o outro que muda: é a percepção sobre ele.

 

A ferida da vulnerabilidade
Outro fator determinante para o surgimento do ódio em relações amorosas é a vulnerabilidade. Para amar de verdade, é preciso se expor. É preciso mostrar medos, fraquezas, inseguranças. E essa abertura, embora necessária para a intimidade, também nos coloca em posição de risco.

"Quando entregamos nossas fragilidades a alguém, entregamos também o poder de nos ferir", explica o psicólogo clínico Adriano Bezerra, especialista em relacionamentos. "O medo de ser magoado pode se disfarçar de raiva. Muitas vezes, odiamos o outro porque ele tem a chave para nos machucar — mesmo que nunca a use."

 

Esse mecanismo de defesa é tão primitivo quanto automático. O corpo reage antes que a mente racionalize. Por isso, é comum que pessoas que amam intensamente também sintam explosões de irritação igualmente intensas.

 

Amor não correspondido: quando a rejeição vira rancor
Há, ainda, os casos em que o amor nunca é plenamente correspondido. A pessoa amada está ali, mas não da forma como se deseja. Nesse cenário, o ódio pode surgir como um escudo contra a dor da rejeição.

 

A psicologia explica que, quando alguém se sente merecedor de amor e não o recebe, a autoestima é duramente atingida. Para preservar a própria imagem, a mente tende a projetar no outro a culpa pelo sofrimento. "Ele não me ama porque tem algum problema", "ela é incapaz de amar" — esses pensamentos funcionam como anestésicos temporários para a ferida narcísica.

 

O problema é que, ao longo do tempo, essa projeção pode se consolidar e transformar o amor em ressentimento crônico. A pessoa amada vira, na cabeça de quem ama, uma figura quase monstruosa — mesmo que, objetivamente, não haja motivos reais para tanto.

 

O lado sombrio da idealização
Outro gatilho para o ódio em relacionamentos é o desencanto. No início de uma relação, é comum idealizar o parceiro. Projetamos nele qualidades que talvez ele não tenha, criamos uma versão aperfeiçoada da realidade.

 

Com o tempo, a convivência trata de mostrar as imperfeições. Hábitos que antes eram charmosos passam a irritar. A fala mansa vira enrolação; a espontaneidade vira falta de planejamento; a tranquilidade vira omissão.

 

"A queda da idealização é sempre violenta", alerta a terapeuta de casais Cecília Zylberstajn. "Quando o outro deixa de ser quem a gente imaginava e passa a ser quem ele realmente é, podemos sentir uma espécie de luto. E o luto, quando não elaborado, vira raiva."

 

Quando o ódio vence o amor
A convivência entre amor e ódio não é, por si só, um problema. O problema surge quando o ódio passa a ocupar mais espaço — e por mais tempo — do que o amor.

 

Relacionamentos saudáveis também têm momentos de raiva, frustração, cansaço. A diferença é que, neles, esses sentimentos são episódicos e não definem a relação como um todo. Já em relações adoecidas, a ambivalência se cronifica: o casal vive alternando entre extremos, sem encontrar um ponto de equilíbrio.

 

Nesses casos, é comum que ambos os parceiros desenvolvam sintomas físicos e emocionais relacionados ao estresse crônico: insônia, ansiedade, dores de cabeça, queda da imunidade, depressão. A saúde, como um todo, é afetada.

 

O que fazer quando amor e ódio coexistem?
Para os especialistas, o primeiro passo é reconhecer que essa ambiguidade é humana — e não um defeito. Sentir raiva de quem se ama não faz de ninguém uma pessoa ruim. Faz, apenas, uma pessoa real.

 

O segundo passo é buscar compreender a origem desse ódio. Ele vem de uma frustração concreta? De uma expectativa não correspondida? De um medo de se machucar? De uma ferida antiga que o outro, sem saber, tocou?

 

"Muitas vezes, odiamos no outro aquilo que não suportamos em nós mesmos", observa Bezerra. "O parceiro funciona como um espelho. E, quando a imagem refletida nos desagrada, a tendência é atirar pedras no espelho."

 

O terceiro passo — e talvez o mais difícil — é aprender a comunicar esses sentimentos sem destruir a relação. Dizer "estou com raiva de você" é muito diferente de dizer "você é insuportável". A primeira frase abre diálogo; a segunda, fecha portas.

 

Quando buscar ajuda profissional
Se a convivência entre amor e ódio tem se tornado mais frequente e intensa, se as discussões são cada vez mais destrutivas, se a saúde física e emocional já dá sinais de desgaste, pode ser hora de buscar ajuda.

 

A terapia de casal não é — como muitos pensam — um recurso para relacionamentos prestes a acabar. Ela é, antes de tudo, uma ferramenta para entender a dinâmica do casal, ressignificar conflitos e aprender a lidar com a complexidade dos sentimentos.

 

Terapia individual também pode ser um caminho importante, especialmente quando o ódio tem raízes em questões pessoais não resolvidas — traumas de infância, padrões repetitivos de relacionamento, baixa autoestima.

 

A beleza imperfeita do amor real
O amor maduro não é aquele que elimina o ódio. É aquele que aprende a conviver com ele sem se deixar dominar. É aquele que reconhece que o outro não é perfeito, que a relação não é um conto de fadas, que haverá dias de cansaço, irritação, vontade de desistir.

E, ainda assim, escolhe ficar.

 

A psicóloga e pesquisadora americana Sue Johnson, criadora da Terapia Focada nas Emoções, costuma dizer que "o amor não é um sentimento — é uma conexão". E conexões verdadeiras são resilientes. Elas suportam tempestades justamente porque sabem que tempestades existem.

 

Na próxima vez que sentir raiva de quem ama, respire fundo. Pergunte-se: essa raiva está dizendo algo sobre o outro ou sobre mim? Ela é um grito de alerta ou apenas o cansaço de um dia difícil?

 

O amor não morre quando sentimos ódio. Ele morre quando deixamos de sentir qualquer coisa. Quando a indiferença ocupa o lugar da ambivalência. Enquanto houver incômodo, enquanto houver implicância, enquanto houver vontade de que o outro seja diferente — ainda há amor.

 

O problema não é sentir ódio. É deixar que ele fale mais alto. E, principalmente, é esquecer que, do outro lado desse sentimento confuso, existe uma pessoa de carne e osso — com suas próprias dores, suas próprias limitações, sua própria e imperfeita maneira de amar.

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